"Ah é você vai poder adotar... que bom!" Esse foi o jeito que minha mãe encontrou de entender e aceitar minha sexualidade depois de tantas conversas. Ela sabia que esse era meu sonho, não o de ser mãe biológica, mas o de poder conquistar o amor de uma criança mesmo que não existam laços genéticos. Isso, somado ao carinho que meus pais têm por crianças me faz acreditar que o dia de dar a grande notícia será comemorado.
Transformar a ideia que as pessoas mais conservadoras têm em relação à nossa sexualidade é só um dos nossos desafios. Fazê-los entender que o sexo não é tudo o que nos motiva a buscar a plenitude em uma relação homossexual faz toda a diferença e digo isso por experiência própria. Meus pais só conseguiram encarar minha sexualidade numa boa mesmo quando passaram a conviver conosco, frequentar nossa casa, passar os feriados aqui participando da nossa vida.

Estendendo para a sociedade como um todo, creio que essa seja a conquista mais importante dos casais homoafetivos. Afinal, não lutamos apenas contra o preconceito dos heterossexuais, dos fanáticos e dos sexistas, lidamos com a questão moral (mesmo que hipócrita) a que nos confere o título de lésbicas. E como irrita quando a gente luta tanto para mostrar que tem uma vida extremamente normal quando chega a Parada Gay e o que vemos é a promiscuidade geral, se ao frequentar uma balada LGBT só o que vemos são meninas e meninos se agarrando em grupos, colocando o fetiche acima de qualquer coisa.
Acredito que todos os lados cometem erros nesse sentido e, para piorar, parece que o mundo insiste em se separar, criar guetos estereotipados. Ao invés de conquistar os direitos de igualdade, acabam estimulando ainda mais o preconceito alegando que de fato somos tão diferentes a ponto de não querermos frequentar os mesmos lugares, ter os mesmos amigos. O hiato que se cria entre os grupos é só mais um nessa sociedade com mania de segmentação e ninguém - absolutamente ninguém - sai ganhando.
Por que um bar precisa ser diferenciado pela sexualidade dos frequentadores? Por que os filmes perdem as categorias de romance, ação, aventura, épicos quando trazem casais gays na trama? Por que nas novelas o personagem gay é sempre O Personagem Gay?
Para acabar com um preconceito desde a raiz precisamos fazer as pessoas se acostumarem com o diferente - que é o normal - ao contrário de tentar mostrar o tempo todo o quão diferente somos. Porque não somos de fato. Todos sentem, riem, choram, amam, odeiam, trabalham, estudam, pensam, saem, entram, fofocam, participam, convivem. Temos que ter orgulho do que somos e de tudo o que compõe nossa essência - incluindo a sexualidade - mas temos que lembrar de sermos iguais a todo mundo, senão seremos sempre O Personagem Gay onde quer que a gente vá. Eu sou lésbica, e sou jornalista, esposa, amiga, pisciana, ansiosa, tagarela, baixinha, ateia, branca, colorada, empresária. E serei mãe.
Simples assim.